Como Belford Roxo virou epicentro da infiltração do crime nas eleições do Rio
Atualizado: 4 de out.
Belford Roxo está no centro de uma discussão que atinge diretamente a democracia na Baixada Fluminense: a presença do crime organizado no processo eleitoral.
Nos últimos anos, casos registrados no município passaram a servir de referência para decisões da Justiça Eleitoral sobre candidaturas apontadas como ligadas a milícias e outras organizações criminosas.
Um dos casos é o de Fábio Augusto de Oliveira Brasil, conhecido como Fabinho Varandão. Ex-vereador de Belford Roxo, ele foi condenado a 12 anos de prisão por chefiar uma milícia envolvida no controle ilegal de serviços de internet em bairros da cidade. Durante a campanha de 2026, seu filho, Ryan Silva, apareceu em atos eleitorais de Márcio Canella e Antonio Rueda.
Outro nome citado nas apurações é Eduardo Araújo, ex-vereador condenado por integrar uma milícia. A Procuradoria Regional Eleitoral apontou que, depois de deixar o governo municipal, ele continuou atuando politicamente e produzindo material de campanha em apoio a Márcio Canella. A defesa de Canella contesta que ele possa ser responsabilizado por atos praticados por terceiros.
Também aparecem nas investigações episódios envolvendo o vereador Matheus Igual a Você, eleito em Belford Roxo em 2024. Reportagens e investigações eleitorais passaram a examinar possíveis relações entre agentes políticos e pessoas apontadas como integrantes de grupos criminosos no município.
Em outro núcleo político está Sérgio Accioly dos Santos, o Dinho Resenha. Em 2024, o Ministério Público cumpriu mandados contra ele durante uma investigação sobre compra de votos. Segundo o MPRJ, mensagens apreendidas indicavam ainda planejamento eleitoral com uso de meios ilícitos e alianças com criminosos. Sua candidatura naquele ano foi indeferida.
Esse conjunto de casos ajuda a explicar por que a Justiça Eleitoral passou a adotar critérios mais rigorosos. Em setembro de 2026, o TRE-RJ informou ter alcançado dez indeferimentos de registros de candidatura fundamentados especificamente em vínculos com organizações criminosas de caráter paramilitar. As decisões ainda podem ser questionadas no Tribunal Superior Eleitoral.
A questão que fica para Belford Roxo e para toda a Baixada é maior do que qualquer candidatura: quando grupos criminosos conseguem interferir em campanhas, alianças e estruturas políticas, o que está em risco é a liberdade do voto e o direito da população de escolher seus representantes sem coerção ou controle territorial.
Fonte: Jornal O Globo


Comentários