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Eleitos pelo voto, questionados por suspeitas: até onde vão as alianças entre política e crime organizado?

10 de out.
4 min de leitura


Entre os três políticos eleitos que tiveram candidaturas questionadas por supostas ligações com o crime organizado estão Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, e Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil. Os casos colocam em discussão a responsabilidade dos partidos, os limites da Justiça Eleitoral e a transparência das alianças políticas.


Uma eleição pode terminar nas urnas, mas nem todas as perguntas sobre os eleitos terminam com a contagem dos votos.


Uma reportagem publicada neste sábado (10) pela Folha de S.Paulo revelou que três candidatos cujos registros foram questionados por suspeitas de vínculos com o crime organizado conquistaram mandatos nas eleições de 2026.


Dois foram eleitos deputados federais e um conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Todos tiveram suas candidaturas autorizadas pela Justiça Eleitoral.


Os nomes são Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo; Antonio Rueda (União Brasil), presidente nacional do partido; e Ney Santos (Republicanos), ex-prefeito de Embu das Artes, em São Paulo.


Os três receberam, juntos, mais de 471 mil votos.


É importante estabelecer uma distinção: ter a candidatura questionada por suspeitas de ligação com organizações criminosas não significa ter cometido um crime. Os casos apresentam circunstâncias diferentes, e as decisões judiciais precisam ser respeitadas.

Mas os questionamentos também levantam uma discussão legítima sobre como são construídas as alianças eleitorais e quais mecanismos existem para impedir a influência do crime organizado nas instituições democráticas.


Belford Roxo no centro da discussão



Na Baixada Fluminense, o caso de Márcio Canella ganha relevância pela relação entre as suspeitas apresentadas pela Procuradoria Regional Eleitoral e as escolhas realizadas durante sua administração municipal.


Eleito deputado estadual com 197.178 votos, a segunda maior votação para a Alerj, Canella teve sua candidatura questionada por supostas ligações políticas com pessoas apontadas como integrantes de milícias.


Entre os elementos apresentados pela Procuradoria estão as nomeações de Eduardo Araújo e Fábio Brasil, conhecido como Fabinho Varandão, para secretarias municipais de Belford Roxo, apesar de decisões judiciais anteriores relacionadas ao envolvimento de ambos com milícias.


A Procuradoria também mencionou manifestações de apoio dos dois à campanha do ex-prefeito.


Outro episódio citado foi a prisão em flagrante de Canella, em julho de 2026, após a Polícia Federal encontrar uma arma de uso restrito em seu veículo. O político foi posteriormente solto por determinação do Supremo Tribunal Federal. Segundo sua defesa, a arma pertencia a um policial responsável por sua escolta.


O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro autorizou sua candidatura, considerando insuficientes os elementos apresentados para justificar o impedimento eleitoral.

Canella nega envolvimento com organizações criminosas, atribui as acusações a adversários políticos e afirma ter combatido facções durante sua gestão. Sua defesa sustenta que as nomeações foram legítimas e que os servidores foram exonerados.


O presidente de um partido também entrou na discussão



Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil, foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro com 155.836 votos.


Sua candidatura foi questionada em razão da campanha conjunta com Canella e do apoio político prestado por pessoas associadas às investigações sobre milícias em Belford Roxo.


A defesa argumentou que Rueda não poderia ser responsabilizado por atos de terceiros e que não tinha como conhecer todos os apoiadores de candidatos com quem realizava campanhas conjuntas.


O TRE-RJ rejeitou os questionamentos e autorizou sua candidatura.


Em São Paulo, Ney Santos foi eleito deputado federal com 118.566 votos. O ex-prefeito de Embu das Artes foi alvo de investigações sobre supostas ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e lavagem de dinheiro.


Ele rejeita as acusações. Sua defesa afirma que as investigações não comprovaram vínculos com organizações criminosas e sustenta que os questionamentos foram arquivados. A Justiça Eleitoral considerou insuficientes os elementos para impedir sua candidatura.


O que a Justiça decide e o que a sociedade tem o direito de perguntar?



Dos 30 candidatos que tiveram registros questionados em razão de suspeitas de ligação com o crime organizado, três foram eleitos.


Esse dado exige uma análise que ultrapasse a disputa entre partidos.


O deferimento de um registro eleitoral significa que o candidato foi considerado apto a participar daquela eleição. Não representa, por si só, uma investigação conclusiva sobre todas as suas relações políticas, administrativas ou pessoais.


Da mesma forma, uma suspeita apresentada por um órgão público não equivale a uma condenação.


É justamente entre esses dois princípios que surge uma das discussões mais importantes para a democracia: como assegurar o direito de participação política sem deixar de investigar possíveis tentativas de influência criminosa sobre o poder público?


Nos territórios onde grupos armados exercem controle sobre serviços, atividades econômicas e a circulação de moradores, essa discussão assume uma dimensão ainda mais concreta.


O problema não se resume a identificar quem venceu uma eleição. Também envolve compreender como campanhas se organizam, quem participa de suas estruturas, quais interesses estão representados e que relações permanecem depois da posse.


Não se pode presumir que um político tenha ligações criminosas apenas porque recebeu apoio de alguém investigado ou condenado. Entretanto, quando existem questionamentos formais sobre essas relações, transparência e prestação de contas passam a ser exigências legítimas da fiscalização pública.


A responsabilidade não é apenas dos candidatos. Partidos, órgãos de controle e instituições eleitorais também desempenham papéis fundamentais na prevenção de interferências criminosas na política.


A democracia exige respeito ao resultado das urnas, mas também exige que o exercício do poder permaneça sujeito à fiscalização.


E a pergunta que fica é: quando surgem suspeitas sobre as alianças de um político eleito, quem deve assumir a responsabilidade de investigá-las e explicar essas relações à sociedade?

 
 
 

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